Já não faz sentido falar de “ir às compras” como antes.
Na passada sexta-feira, tive a oportunidade de participar numa palestra sobre E-commerce e Fidelização e percebi que, hoje, o consumidor não quer apenas produtos, quer contexto, quer experiência, quer sentir que está dentro de algo maior.
É aqui que entram novas dinâmicas como o Live Shopping, onde a compra acontece em tempo real, com interação ao vivo, criadores ou marcas a apresentarem produtos, a responderem a perguntas e a criarem uma experiência mais envolvente e imediata. O futuro do retalho já não é mono-canal. É diversificação total de canais, interação ao vivo e uma experiência contínua, sem fronteiras claras entre o online e o offline.
Neste sentido, marcas como a Nike já estão a aplicar o mesmo princípio nas suas lojas físicas, transformando o espaço de venda num palco interativo, onde o cliente participa, explora e vive a marca, e não apenas compra. A Nike não faz isto em lives tradicionais, mas faz algo equivalente dentro da loja onde tudo é imediato, interativo e orientado para ação. É quase um “live shopping físico”, onde o cliente participa ativamente na experiência.
Se caminhares pela icónica 5ª Avenida, em Nova Iorque, vais encontrar a Nike House of Innovation, que me parece ser um excelente exemplo para perceber para onde o retalho está a caminhar e o tipo de experiência que está a ser criada à volta do consumo (ver mais info aqui e aqui).
OFF = ON: quando o digital e o físico deixam de ter fronteiras
Com esta novidade a Nike fez uma coisa simples, mas poderosa: eliminou a
separação entre online e offline.
- fazer scan de produtos num manequim e ver stock em tempo real
- pedir peças diretamente para o provador
- pagar diretamente na app sem passar por filas das caixas tradicionais (Instant Checkout)
É uma excelente estratégia de omnicanalidade pois o consumidor não quer apenas canais diferentes, quer um único percurso fluido, onde ele decide como, quando e onde interage.
Basicamente o cliente está imerso num ecossistema onde a conveniência digital e a gratificação instantânea física se fundem perfeitamente! Portanto, a loja física continua a ser essencial porque dá aquilo que o digital nunca consegue: sentir o produto, experimentar, viver o momento.
Muito além do showrooming
Se o showrooming transformou as lojas em simples pontos de exposição, a Nike fez exatamente o contrário: transformou-as em palcos de experiência, através de estratégias como:
- Sport Offense: Em vez de prateleiras confusas, a Nike organiza equipas focadas por desporto (Corrida, Basquetebol, Futebol), oferecendo uma curadoria clara ao atleta.
- Speed Shop: No subsolo, o stock é decidido por IA preditiva baseada nos dados de consumo daquela comunidade local. A loja sabe o que o bairro quer antes mesmo de o cliente pedir!
A grande inovação da Nike foi permitir que o consumidor dite o ritmo da sua jornada. Se desejas assistência pessoal, há especialistas no Expert Studio. Se preferes autonomia, pode usar o Shop the Look para escanear QR codes em manequins e enviar as peças diretamente para o provador via app.
Aqui, o comprar deixou de ser só comprar, virou experiência!
Na Geração Z, a memória do momento é tão ou mais importante quanto o produto. Em Paris, a Nike elevou a fasquia ao lançar as Air Max Dn com hologramas 3D. Sob o mote "Feel the Unreal", os clientes podiam inspecionar detalhes técnicos de conforto através de imagens flutuantes, transformando a transação numa atividade de lazer imersiva. O objetivo era fazer com que o cliente se lembre do momento, não só do produto.
Co-criação: O Cliente
como Designer (Prosumer)
Nesta nova paisagem, o consumidor quer é participação. E, por isso, mais uma vez a Nike foi estratégica com a criação do Nike
Expert Studio e do Sneaker Lab numa lógica de "NIKE BY YOU" onde membros NikePlus podem
personalizar os seus produtos com especialistas, transformando-os em peças
únicas. Esta ligação emocional cria um "templo da marca" que o
digital puro jamais conseguirá replicar!
⚠️ O Desafio da Realidade: Nem Tudo é Tecnologia!
Apesar do brilho tecnológico, começaram a surgir sinais de que a Nike está num momento de reorientação.
A tecnologia e a omnicanalidade são ferramentas poderosas, mas nada substitui um foco consistente num produto/serviço e uma escuta ativa do consumidor.
Sob o comando de Elliott Hill, a Nike procura agora equilibrar este espetáculo digital com um regresso às suas raízes: a performance desportiva real.
Conclusão: Mas afinal o que realmente sustenta a relação?
Mas, no meio de toda esta inovação, e tendo em conta os desafios que a Nike enfrentou a respeito disso... Até que ponto toda esta experiência é suficiente para conquistar o consumidor, se um produto/serviço deixar de acompanhar o nível de inovação esperado? Uma questão que merece reflexão.
Olá, Sara!
ResponderEliminarNa minha opinião, este tipo de estratégia da Nike é mesmo muito interessante e mostra bem para onde o retalho está a caminhar. Hoje já não chega ter só um bom produto, sentimos cada vez mais necessidade de viver a marca e de fazer parte de algo maior. E nisso, acho que a Nike está mesmo muito à frente.
Mas ao mesmo tempo, fico um bocadinho dividida. Por um lado, estas experiências são super envolventes e fazem toda a diferença. Por outro, tenho a sensação de que, às vezes, as marcas podem estar a apostar demasiado na experiência e a esquecer o essencial: o produto.
Porque no fim do dia, por muito incrível que seja toda a envolvência, se o produto não acompanhar, acho que a relação com o consumidor não se sustenta. A experiência chama a atenção, mas é o valor real que nos faz voltar.
Acho que o grande desafio está mesmo aí, encontrar o equilíbrio entre impressionar e entregar algo que faça sentido a longo prazo.
Concordo, mas o brilho dos hologramas 3D e da IA não consegue disfarçar o mais importante: o produto em si. A fusão do físico com o digital na Nike é brilhante, mas a quebra recente nas vendas mostra que a marca se deslumbrou tanto com o "espetáculo" que se esqueceu de aperfeiçoar o produto principal.
ResponderEliminarA omnicanalidade deve ser o motor que entrega o produto, e não o produto em si. O efeito "Uau!" de uma loja interativa atrai multidões, mas se os ténis falharem no desempenho, a magia desfaz-se. Sem o equilíbrio perfeito entre o espetáculo e a qualidade real, o templo da marca corre o risco de se tornar apenas um museu muito interativo, mas sem clientes.