sábado, 28 de março de 2026

O Poder da Co-Criação: Da Compra de Sets ao Design de Comunidade

No ecossistema do marketing moderno, a LEGO destaca-se como um dos casos mais fascinantes de envolvimento do consumidor. Para muitos, a experiência começa de forma simples: com a compra de um conjunto e a respetiva montagem, seguindo as instruções da caixa. No entanto, para um número crescente de utilizadores, a experiência não termina com a última peça. Estes fãs passam a projetar os seus próprios modelos (os chamados MOCs - My Own Creations), partilham fotos em fóruns e participam em plataformas como o LEGO Ideas, onde os designs criados por utilizadores podem tornar-se produtos oficiais. Esta tática, que permite ao consumidor personalizar a marca, é o que transforma compradores ocasionais em membros ativos de uma comunidade.


Sanna Malinen (2015) explica detalhadamente a importância desta estratégia na sua revisão sistemática sobre a participação em comunidades online.

Segundo a autora, a sustentabilidade de qualquer serviço online depende da capacidade de gerar conteúdo através dos seus membros. O artigo realça que a participação não deve ser encarada como uma dicotomia simples entre "ativo" e "passivo", mas sim como uma transformação gradual.

No exemplo da LEGO, observamos precisamente o que Malinen descreve como a transição da "periferia" para o "centro" da comunidade: o utilizador deixa de ser apenas um consumidor de informação (lurker) para se tornar um criador e influenciador.
Esta tática é crucial, pois o envolvimento ativo gera maior lealdade e satisfação. Malinen reforça que, quando os membros começam a focar-se menos no produto em si e mais na interação entre si, a comunidade torna-se "autoconsciente" e resiliente.

Para as empresas, isto traduz-se em valor financeiro e inovação constante, visto que os utilizadores mais ativos funcionam como ferramentas de criação de valor que as marcas, isoladamente, não conseguiriam replicar.
Em suma, incentivar a transição dos fãs da periferia para o centro não é apenas uma estratégia de apoio, mas sim o motor que garante que a comunidade e a marca permaneçam vivas e relevantes a longo prazo.

Será que o futuro das grandes marcas passa por abdicar do controlo total do design e deixar que sejam os clientes a ditar o que chega às prateleiras, ou esse excesso de liberdade pode descaracterizar a identidade da empresa?

quinta-feira, 26 de março de 2026

Como continuar a ser relevante: lição Hannah Montana

Quase 20 anos depois, Hannah Montana voltou. E isto levanta uma questão essencial para o Marketing: como é uma marca sobrevive à passagem do tempo?


O fenómeno Hannah Montana passou-me completamente ao lado, mas nestes últimos dias tem sido tema de conversa, conseguindo algo que no marketing é muito importante: ser relevante!

A verdade é que Hannah Montana não é apenas uma série, transformou-se num movimento geracional, tornou-se parte da cultura popular. E como é que isto é relevante? Quando isto aconteceu, deixou de viver apenas de comunicação e publicidade, e passou a viver das pessoas.

Desde o início que Hannah Montana conseguiu duas coisas que nem sempre todas as marcas conseguem: ter uma proposta de valor clara e identificável, e saber exatamente para quem queria comunicar. Parece fácil, mas nem sempre o é. É espantoso o número de marcas que anos a fio procuram estar em todo o lado e chegar a todos, sem nunca saber bem quem são.

Para quem não conhece a história, Hannah Montana é uma adolescente com uma vida dupla: pessoa comum durante o dia, e estrela pop durante a noite. Resumindo, é o espelho de uma condição básica humana: quem mostramos ser e quem realmente somos. E isso acontece também com as marcas, mas não é necessariamente mau, desde que seja transparente. É algo que humaniza a marca e cria uma ligação com o público, uma ligação emocional.

O fenómeno da Disney foi ainda mais longe, e criou uma consistência única, o que reforçou a sua identidade e o reconhecimento do público. Construiu um universo coerente. E essa consistência garantiu-lhe um lugar de relevância na memória coletiva. Isto é o que separa marcas que perduram de produtos que apenas existem.

Dizem que voltar a ser importante duas décadas depois não é fácil. Hannah Montana mostrou o contrário. Mais do que voltar a ser relevante, mostra que o formato com que começamos não tem que nos definir para sempre. Se tiver que mencionar outros casos, é impossível não mencionar Harry Potter ou Friends, mas quantos mais existem?


Fonte imagens: Disney+

Influencers criados por IA: O fim da autenticidade ou o futuro do marketing?

Nos últimos anos, o marketing de influência tem evoluído de forma significativa, mas uma das tendências mais curiosas é o surgimento de influencers criados por inteligência artificial.

Perfis como Lil Miquela mostram como as marcas já não dependem apenas de pessoas reais para comunicar com o público. Estes influencers digitais têm personalidade, estilo, opiniões e até colaborações com grandes marcas, tudo cuidadosamente construído por equipas criativas.

https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/10/conheca-a-personagem-digital-e-influenciadora-que-se-tornou-embaixadora-da-bmw/

https://www.instagram.com/reels/DGtdfkhTGzT/

À primeira vista, pode parecer apenas uma inovação tecnológica, mas na verdade levanta questões interessantes do ponto de vista do marketing. Ao contrário dos influencers tradicionais, estes perfis são totalmente controlados pelas marcas, o que elimina riscos associados a polémicas, comportamentos inesperados ou incoerências na comunicação.

Por outro lado, surge a questão da autenticidade. Parte do sucesso do marketing de influência sempre esteve ligado à identificação e à confiança. Quando o público sabe que está a interagir com uma “personagem” criada artificialmente, será que essa ligação continua a existir da mesma forma?

Ainda assim, algumas marcas têm conseguido integrar estes influencers de forma bastante eficaz, criando conteúdos visualmente apelativos e alinhados com as tendências das redes sociais. Em muitos casos, o público acaba por interagir com estes perfis de forma semelhante à que faria com um influencer real.

Este fenómeno mostra como o marketing digital continua a adaptar-se à tecnologia e ao comportamento dos consumidores. Mais do que substituir os influencers tradicionais, os criadores virtuais podem vir a complementar as estratégias das marcas, abrindo novas possibilidades criativas e de controlo da comunicação. Contudo, este controlo total traz um desafio, o risco da desumanização. 

Mas fica a questão: Será que os influencers virtuais criados por IA são o futuro do marketing de influência, ou a autenticidade humana continuará a ser o fator mais decisivo? 

O inesperado que vendeu: o efeito Nike Tech Fleece

Há momentos em que o marketing deixa de ser planeado…e passa simplesmente a acontecer! Foi exatamente isso que aconteceu com a Nike num dos casos mais inesperados (e fascinantes) de marketing recente (ver mais informação aqui).


Tudo começou com uma publicação de Donald Trump


Após a captura de Nicolás Maduro, o então presidente venezuelano, uma fotografia partilhada por Donald Trump espalhou-se rapidamente pela internet. O cenário era forte: algemas, olhos vendados e tensão política global

Mas não foi isso que prendeu a atenção do público.

 Foi o outfit

Um simples fato de treino cinzento da Nike Tech Fleece. Em poucas horas, o foco mudou completamente.

Quando o produto rouba o protagonismo

O que se seguiu foi um fenómeno clássico da era digital:

- Memes
- Vídeos virais
- Discussões no TikTok e X
- “Steal the look”

E, claro… aquela curiosidade massiva.
                  






 

 

As pesquisas por “Nike Tech Fleece” dispararam globalmente e o produto começou a esgotar em várias lojas! (ver mais informação aqui e aqui)


Um momento geopolítico transformou-se, inesperadamente, numa montra global de streetwear, sem qualquer intervenção da Nike.

O verdadeiro “influencer”? O contexto


Neste caso, não houve influencers pagos, nem celebridades contratadas.

O influencer foi o próprio momento.

Isto mostra algo essencial no marketing atual:

- A notoriedade pode nascer de qualquer evento viral
- A associação a figuras públicas (mesmo em contextos negativos) gera atenção
- E a internet, principalmente os zoomers (geração net) transforma qualquer detalhe visual em tendência

A lógica mudou.

O mais interessante é que as pessoas procuraram não pelo fato de treino em si, mas pelo swag, pelo estilo e pela estética quase “bandida” que a imagem transmitia.

O poder do efeito "pull" sem intenção e earned media


As pessoas viram.
Ficaram intrigadas.
Quiseram aquele look.
Procuraram.
E compraram.

Um verdadeiro efeito pull.

Um verdadeiro caso de earned media em escala global!

O que podemos aprender com isto?


Este caso mostra uma mudança clara no marketing contemporâneo:

- As marcas já não controlam totalmente a narrativa
- A cultura digital pode transformar qualquer momento em exposição
- E o valor está cada vez mais na atenção… não apenas na intenção

A Nike não fez nada.

E fez tudo!

Conclusão


Num mundo hiperconectado, o marketing já não vive apenas de estratégia.

Vive de contexto.
De timing.
E, acima de tudo… de atenção.

Às vezes, basta uma imagem polémica.

E o mundo faz o resto.

Bem ou mal!

E vocês? sejam honestos...olharam para a notícia ou para o outfit? :)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Tesla: A revolução do Marketing "invisível"

A Tesla é frequentemente citada como a exceção do mundo automóvel por um facto extraordinário: durante mais de 10 anos, a empresa manteve um orçamento de publicidade de 0€. Enquanto gigantes como a Ford ou a Toyota investem milhões em Paid Media, como anúncios de TV e outdoors.


O segredo deste sucesso reside no domínio absoluto da Earned Media. A Tesla gera milhões de dólares em exposição gratuita principalmente através do Word-of-Mouse. A estratégia consiste em transformar o automóvel num "gadget" sobre rodas, promovendo a criação de conteúdo gerado pelos utilizadores. Milhares de utilizadores no YouTube e TikTok publicam análises detalhadas e demonstrações, sem receberem um cêntimo da marca, validando o produto de forma muito mais credível do que um anúncio pago.

A marca de Elon Musk não possui apenas clientes, possui uma Tribo. Através do seu programa de referenciação, a marca oferece recompensas digitais para que os atuais proprietários recrutem novos membros. Este modelo de Marketing Tribal cria um sentimento de pertença a uma causa (a transição para a energia sustentável) o que ressoa perfeitamente com os valores da Geração Net

Em 2024, a Tesla começou a testar anúncios no Google e no X, adaptando-se ao mercado e reconhecendo que, num mercado saturado, a visibilidade é um recurso cada vez mais escasso. Esta transição para o Blended Marketing reflete o desafio de manter a sua imagem autêntica enquanto compete por quota de mercado contra novos gigantes elétricos.


A entrada da Tesla no Paid Media retira a autenticidade à marca ou é um passo inevitável para a massificação? Se estivesses à frente do marketing da Tesla, optarias por continuar a confiar apenas no Word-of-Mouth ou adotarias uma estratégia de Blended Marketing?