A camisola não tem nada de especial. Mais uma daquelas tendências que entram e saem de moda a tempo da nova coleção. A combinação invulgar de cores nem sequer lhe permite aspirar a tornar-se uma peça clássica. Mas, de repente, está nas notícias.
"Nas notícias?!? Não estás enganada, Raquel? Não querias dizer no TikTok?"
Não. Foi mesmo nas notícias.
É que, pelos vistos a camisola terá, alegadamente, adquirido qualidades extra-sensoriais (ou devo dizer extra-terrestres?) e já foi acusada de "maldição". E isso, claramente, é notícia.
Senão vejamos:
Primeiro, foi a influencer que, envergando o artigo, manifesta nas redes sociais sentir desconforto com a eventual partilha de balneário com mulheres de orientação sexual diferente da sua. Logo as redes em bloco lançam o veredicto: Proibida! (Camisola proibida)
E subitamente a camisola ganha visibilidade num daqueles processos que já se tornam habituais na era "viral", isto é, sem que a marca tenha dedicado sequer um momento a tentar promovê-la. Entre detratores e defensores a camisola esgota no site da marca a começa a só poder ser encontrada à venda em segunda mão.(vinted)
Depois foi a personagem de reality-show que envergando a mesma camisola, se revela imoral. Parece impossível! Aqui, para o "tribunal" das redes, não subsiste qualquer duvida: o poliéster voltou a atacar!
As redes encarniçam-se e o veredito transita em julgado: a culpa é da maldição daquelas riscas! De repente, não se fala em outra coisa, mesmo que seja com humor:
E até os meios chamados "tradicionais" de comunicação já difundem estas campanhas alcançando a "fatia" de mercado que pode estar menos atenta às redes sociais (Jornal da TVI)
E a Zara? Não faz nada. Mesmo.
Do lado de quem pode tirar partido de todo este "ruído", existe apenas o silêncio. Sim, porque a Zara mantém-se completamente afastada deste processo, sem mostrar qualquer interesse em alimentar "alucinações" nas redes e nem sequer reforça os stocks do artigo que se mantém, há muito, esgotado.
Mas este assunto tem todos os ingredientes-chave para uma boa promoção: visibilidade nas redes, comentários com humor e um pouco de polémica. Isso nunca fez mal a ninguém, ou será que fez?
Estará a Zara distraída? Será que está irresponsavelmente a deixar escapar uma excelente oportunidade de aumento de vendas à boleia de promoção gratuita, ou estará a adotar uma estratégia de contenção protegendo a sua marca e os seus produtos de eventuais impactos menos agradáveis que podem ocorrer como resultado de campanhas inconstantes, com contornos cada vez mais surreais, que a marca não pediu, definitivamente não controla e que, portanto, escolhe não reconhecer?
Eu julgo que a Zara estará, à boa e velha maneira de fazer marketing, a tentar manter controle sobre a mensagem. Porque há alturas em que "menos é mais".
E vocês, acham que a Zara está a reagir da forma mais vantajosa para si?
(Quanto a mim, pelo sim pelo não, da próxima vez que for à Zara, levo um raminho de arruda na carteira e não compro nada sem verificar primeiro se já têm os dentes de alho atrás da porta, porque que las ay, las ay...)
☺️
Olá Raquel! Bem vinda (finalmente 😉) ao blogue! E logo em grande estilo (literalmente ☺️). Entre este caso, o do Punch e da IKEA, e o do Nicolás Maduro e da Nike, que venha o diabo e escolha! 😉 Muito bom!, obtigada pela partilha e Boa Páscoa!
ResponderEliminarOlá, Raquel.
ResponderEliminarAdorei o teu post! É incrível como uma peça tão simples pode gerar uma narrativa completamente surreal nas redes sociais e nos media, quase como se o poliéster tivesse poderes próprios. Gostei muito da forma como exploraste a dimensão viral e a reação da marca. É um ótimo exemplo de como, na era digital, a atenção pública pode surgir de forma totalmente inesperada e fora do controlo da empresa.
A forma como a Zara opta por não alimentar a “história” é fascinante. Concordo que pode ser uma estratégia de contenção: ao não reagir, mantém o controlo da mensagem e evita associar a marca a uma polémica que, no fundo, não lhe traz valor direto. É o clássico “menos é mais” no marketing contemporâneo .. às vezes, silêncio estratégico vale mais do que qualquer campanha.
Pessoalmente, acho que este caso mostra que a viralidade é um terreno ambíguo: pode trazer visibilidade e notoriedade gratuita, mas também pode criar associações inesperadas e difíceis de gerir. Acho que a Zara está a "navegar" com cuidado, e provavelmente isso protege a imagem da marca mais do que qualquer ação imediata poderia fazer.
Olá, Raquel! Gostei muito do teu post, sobretudo pela forma original e bem-humorada como abordaste um caso que, apesar de parecer quase absurdo, diz bastante sobre a lógica de viralidade nas redes sociais. Achei especialmente interessante a forma como mostras que, hoje, um produto pode ganhar notoriedade não por uma estratégia planeada pela marca, mas pela narrativa que o público cria à sua volta.
ResponderEliminarTambém considero muito pertinente a tua reflexão sobre o silêncio da Zara. Neste caso, faz sentido pensar que não reagir também pode ser uma estratégia, precisamente para não legitimar uma associação que a marca não controla e que pode facilmente fugir do tom desejado. Nem toda a visibilidade é necessariamente vantajosa, e o teu post mostra bem essa ambiguidade.
Respondendo à tua questão final, acredito que a Zara pode estar a agir da forma mais segura para proteger a marca, sobretudo porque este tipo de fenómeno é muito volátil e imprevisível. Às vezes, tentar aproveitar o momento pode gerar ainda mais ruído e acabar por retirar controlo da comunicação. Excelente reflexão e um fecho muito divertido!
Raquel, experimente ao Google e pesquisar "Zara, camisola maldição, poliester". Este post aparece no topo da 2a página dos resultados da pesquisa!
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