domingo, 31 de maio de 2026

O macaco que conquistou a internet: como o IKEA se tornou viral com Punch

Num ambiente digital onde as tendências surgem e desaparecem rapidamente, muitas marcas aproveitam os fenómenos virais para aumentar a sua visibilidade. Um exemplo recente disso foi o caso do pequeno macaco Punch, que acabou por colocar o IKEA no centro de uma das histórias mais partilhadas nas redes sociais em 2026.

Punch é um pequeno macaco que vive no Ichikawa City Zoo, no Japão. Depois de ter sido rejeitado pela mãe, os tratadores deram-lhe um peluche do IKEA para lhe proporcionar conforto. O peluche, que era um orangotango da coleção Djungelskog, começou a ser visto por Punch como se fosse uma espécie de "figura maternal" e começou a aparecer em vídeos onde o macaco o abraçava constantemente.


Rapidamente, começaram a circular nas redes sociais imagens e vídeos (com milhões de visualizações) onde a história emocionou milhares de pessoas em todo o mundo, que passaram a partilhar os vídeos e a comentar a relação inesperada entre o macaco e o peluche. Com a popularidade crescente, o peluche tornou-se extremamente procurado, e em vários países, esgotou rapidamente do IKEA e chegou a ser vendido em plataformas de revenda online, a preços superiores ao original.

Após esta história ficar viral, o IKEA reagiu nas redes sociais em vários paises, utilizando este caso como uma ferramenta de marketing. Esta resposta rápida mostra como muitas empresas procuram adaptar-se a acontecimentos virais e aproveitar momentos inesperados que surgem na internet. No entanto, a situação também gerou alguma polémica. Alguns utilizadores questionaram até que ponto é adequado transformar uma situação emocional envolvendo um animal num fenómeno de marketing, levantando questões éticas sobre a exploração comercial de histórias sensíveis.

Este caso demonstra bem o poder das redes sociais no marketing digital atual. Um momento inesperado pode transformar-se rapidamente numa tendência global, influenciando não só a visibilidade de uma marca, mas também o comportamento de compra dos consumidores.

E para vocês, será que as marcas devem aproveitar fenómenos virais como este para comunicar com o público, ou existe um limite quando se trata de histórias mais sensíveis?


Fontes:

https://www.reuters.com/world/asia-pacific/abandoned-baby-monkey-finds-comfort-stuffed-orangutan-charming-zoo-visitors-2026-02-20/

https://www.euronews.com/culture/2026/02/20/how-an-abandoned-plush-loving-macaque-became-the-most-beloved-monkey-on-the-internet

https://www.japantimes.co.jp/news/2026/02/20/japan/abandoned-baby-monkey-stuffed-orangutan/

https://www.businessinsider.com/punch-sad-viral-tiktok-monkey-ikea-plush-djungelskog-orangutan-2026-2

https://parade.com/news/viral-punch-monkeys-stuffed-orangutan-selling-hundreds-ebay-ikea-sells-out

https://www.abs-cbn.com/news/world/2026/2/24/ikea-sells-out-viral-orangutan-plushie-favored-by-punch-the-abandoned-monkey-1531

https://www.natureworldnews.com/articles/72733/20260227/peta-condemns-viral-baby-monkey-punchs-zoo-conditions-ikeas-stuffed-orangutan-toy-sells-out.htm

quinta-feira, 28 de maio de 2026

AEO e GEO: o que são e como já não os podemos ignorar

Durante anos e anos, profissionais de marketing digital só tinham como única preocupação o SEO. A introdução da Inteligência Artificial (IA), das pesquisas por voz e dos motores generativos, deu relevância a duas novas siglas: AEO e GEO. Assim, importa saber o que são e para que servem.

Nos dias de hoje, otimizar por si só já não é suficiente. Uma empresa precisa adaptar-se aos novos formatos de pesquisa, às respostas automáticas. Precisa debruçar-se sobre as três estratégias focadas na visibilidade online e trabalhar cada uma delas para que a marca chegue ao maior número possível de pessoas.

 
SEO
O SEO, ou Search Engine Optimization, é a ferramenta que trabalha a otimização de motores de pesquisa tradicionais como o Google ou Bing. Através de pesquisa e definição de palavras-chave, gera-se cliques e tráfego orgânico para o website. Apesar das mudanças introduzidas com a IA, o SEO continua a ser uma das bases fundamentais do marketing digital.
 
AEO
O AEO, ou Answer Engine Optimization, é a otimização para ser resposta direta. Isto é, ser o resultado “zero cliques” favorito em pesquisas de voz rápidas. Funciona não só para os motores de pesquisa tradicionais, mas também para os assistentes virtuais como a Alexa.

O AEO surge como uma evolução “natural” do SEO. Só que em vez de gerar apenas cliques, fornece respostas diretas, aparece em snippets (pequeno fragmento reutilizável de informação) destacados e otimiza conteúdos em formato de pergunta e resposta. Esta ferramenta torna-se essencial para as marcas que mais do que aparecer, querem ser a resposta.

GEO
O GEO, ou Generative Engine Optimization, é a otimização para motores de pesquisa generativa e IA (Chat GPT, Gemini, entre outros). Aqui é falar de tornar o conteúdo de uma marca relevante e a mesma como uma fonte primária.

Entre outros aspetos, o GEO trabalha a autoridade e credibilidade da marca através de conteúdo profundo e contextual (o próprio conteúdo da marca). A informação surge através de dados estruturados e de fontes fidedignas.
 
 
Nos dias de hoje, estas três estratégias são imprescindíveis para alcançar visibilidade online. Os três tornaram-se inseparáveis e não dá para trabalhar apenas uma vertente. O SEO tem a função de atrair os utilizadores para o website, enquanto o AEO extrai informação para respostas diretas. Já o GEO posiciona a marca como uma referência nas plataformas de IA.

A pergunta que fica é quantos de vocês é que já trabalham estas três estratégias?


Fonte: Neil Patel (https://neilpatel.com/)

Imagem: Pexels

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Coca‑Cola x Panini: A campanha que junta colecionismo, gamificação e Geração Z

A parceria entre a Coca‑Cola e a Panini para o Mundial 2026 mostra bem como o marketing está a evoluir para unir o físico ao digital de forma natural. Em Portugal, a marca transformou algo tão simples como comprar uma Coca‑Cola numa experiência colecionável e gamificada, pensada sobretudo para um público jovem que já não se contenta apenas com o produto, quer interação, exclusividade e recompensa.

A dinâmica é simples: quem compra uma Coca‑Cola participante pode fazer o scan da embalagem na app oficial, carregar o talão e acumular pontos. Esses pontos dão acesso a prémios, mas o destaque vai para os 12 cromos exclusivos Coca‑Cola, que completam duas páginas especiais da caderneta Panini e que não podem ser comprados em lado nenhum. Só existem dentro da campanha. Esta exclusividade cria um valor emocional imediato e incentiva a repetição de compra, ao mesmo tempo que leva milhares de consumidores para dentro do ecossistema digital da marca.

É aqui que a estratégia se liga diretamente à Geração Z. Este público vive entre o físico e o digital, gosta de colecionar mas quer que a experiência tenha um lado interativo, quase de jogo. O sistema de pontos, o scan das embalagens, a sensação de desbloquear algo raro e a possibilidade de trocar pontos por saquetas Panini encaixam perfeitamente na lógica de gamificação que esta geração valoriza. Não é apenas colecionar cromos, é participar, avançar, ganhar.

Ao mesmo tempo, a campanha aproveita o contexto emocional do Mundial, um momento que naturalmente gera conversa, partilha e entusiasmo. A Coca‑Cola usa isso a seu favor, criando uma experiência que se espalha facilmente entre amigos, grupos e redes sociais. É o tipo de ação que vive tanto no bolso como no telemóvel, e que transforma um produto de consumo rápido numa experiência contínua.



No fundo, esta parceria mostra como o marketing atual funciona: juntar exclusividade, interação e timing certo para criar algo simples, mas altamente eficaz. A Coca‑Cola assim, não vende apenas bebidas vende uma experiência que a Geração Z reconhece, valoriza e partilha.

Fontes

ECO. (2024). Coca‑Cola celebra Mundial com embalagens colecionáveis e cromos exclusivos. ECO. https://eco.sapo.pt

Echo Boomer. (2024). Coca‑Cola lança campanha com cromos Panini exclusivos e sistema de pontos na app. Echo Boomer. https://echoboomer.pt

Grande Consumo. (2024). Coca‑Cola e Panini lançam cromos exclusivos para o Mundial 2026. Grande Consumo. https://grandeconsumo.com

ZeroZero. (2024). Coca‑Cola junta‑se à Panini para lançar cromos exclusivos em Portugal. ZeroZero. https://zerozero.pt

Coca‑Cola Europacific Partners. (2024). Comunicado oficial: Parceria Coca‑Cola x Panini Portugal. Coca‑Cola CCEP. https://ccep.com

Nem sempre as marcas controlam a conversa. Mas as melhores sabem surfar a onda na internet.


A nova garrafa de 3,1L da Penacova é o exemplo perfeito de como uma decisão de supermercado pode explodir e virar o assunto do momento no marketing digital.

A marca diz que o objetivo era só lançar um formato prático, mas na internet as marcas planeiam uma coisa e o público decide outra. Em poucas horas, os 3,1L viraram meme, geraram mil piadas nas redes sociais e invadiram o feed de toda a gente.

Hoje em dia, o mais difícil no digital é fazer as pessoas pararem o scroll. A Penacova conseguiu o que muitas marcas pagam fortunas para ter: publicidade gratuita, espontânea e partilhada pela própria comunidade.

Isto prova que, no marketing atual, gerar conversa é o ativo mais valioso. Às vezes, o segredo não está no produto, mas na capacidade de entrar no jogo quando a internet decide falar de nós.

Fontes: 

https://eco.sapo.pt/2026/05/20/penacova-cria-garrafa-de-31-litros-e-escapa-a-volta/

https://marketeer.sapo.pt/nao-foi-pensado-para-contornar-nada-estamos-a-oferecer-mais-um-produto-ao-mercado-fundador-da-aguas-penacova-defende-nova-embalagem

https://www.caldasdepenacova.pt/

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Swatch x Audemars Piguet: Quando o lançamento se tornou um fenómeno

 Há poucos dias, a Swatch e a Audemars Piguet lançaram uma colaboração improvável: a coleção Royal Pop. Mais do que um simples lançamento de relógios, tornou-se rapidamente tema de conversa, com filas à porta, partilhas nas redes sociais e muita atenção à volta do assunto.

A força desta colaboração está, desde logo, no contraste entre as duas marcas. De um lado, a Audemars Piguet, associada ao luxo, exclusividade e alta relojoaria. Do outro, a Swatch, uma marca mais acessível, colorida e conhecida pela grande maioria. Foi precisamente esta combinação que tornou o lançamento tão apelativo, ao juntar o desejo associado à Audemars Piguet à acessibilidade e irreverência da Swatch.

Mas o interesse não veio apenas do produto ou da colaboração em si. Veio também da expectativa criada à volta do lançamento. Havia poucas unidades, acesso limitado e a perceção de que era preciso estar atento para não perder a oportunidade. Essa urgência não ficou limitada às lojas e passou rapidamente para as redes sociais.

Começaram a circular fotografias das filas, vídeos de pessoas à espera durante horas e da confusão instalada em algumas lojas, com consumidores a tentar garantir uma das peças da coleção. No meu caso, foi através dessas partilhas que percebi a dimensão do fenómeno, mais do que através da comunicação oficial das marcas.




Isto mostra como o impacto de um lançamento já não depende apenas da mensagem controlada pelas marcas. Depende também da forma como os consumidores registam, partilham e interpretam o momento. Neste caso, as filas e a dificuldade em conseguir o relógio deixaram de ser apenas uma consequência da escassez. Passaram também a alimentar a perceção de que aquele lançamento era algo importante, desejado e difícil de ignorar.

Ao mesmo tempo, esta estratégia também tem um lado discutível. A atenção gerada nas redes sociais pode reforçar o valor da marca, mas também pode fazer com que o foco deixe de estar no produto e passe a estar no "hype". No fundo, já não se trata apenas de gostar da colaboração, mas também de querer participar no fenómeno à volta dela.

Pelo menos no meu caso, vi primeiro o fenómeno nas redes sociais e só depois fui perceber melhor a colaboração em si. E talvez seja isso que torna este lançamento tão interessante, pois antes de ser avaliado como produto, começou por ser consumido como acontecimento. A linha entre desejo de marca e corrida pelo "hype" torna-se, por isso, cada vez mais difícil de distinguir.

Mais alguém foi surpreendido nas redes sociais pelo “caos” instalado à volta deste lançamento?


Fontes:

https://www.publico.pt/2026/05/18/impar/noticia/filas-lojas-fechadas-revendas-online-confusao-lancamento-novo-relogio-swatch-2175148

https://marketeer.sapo.pt/filas-confrontos-e-gas-pimenta-o-caos-em-torno-dos-relogios-swatch-x-audemars-piguet-ajuda-ou-prejudica-as-marcas/?photo=1

https://sicnoticias.pt/mundo/2026-05-18-video-relogio-da-swatch-com-a-audemars-piguet-provoca-filas-em-varios-centros-comerciais-a68da729

domingo, 24 de maio de 2026

Maybelline: O impacto do FOOH na era do Consumidor Digital

Quem navegou pelas redes sociais nos últimos anos certamente se deparou com um vídeo surreal, um comboio em Londres, equipado com umas pestanas gigantes, a passar por uma parede de um túnel de onde saía uma escova de rímel para as pintar.



À primeira vista, parecia a mais genial ativação física de publicidade. Contudo, na realidade, tratava-se de FOOH (Fake Out Of Home), uma campanha gerada inteiramente por computador (CGI) que nunca existiu no mundo físico real.

Este caso da marca Maybelline representa uma das evoluções mais fascinantes do Mix da Comunicação Digital, onde as fronteiras entre a publicidade tradicional e o conteúdo digital se dissiparam por completo para gerar níveis históricos de engagement.

Olhando para esta estratégia percebe-se rapidamente por que motivo a marca abdicou do custo de uma ativação real. Ao criar um conteúdo que parece fisicamente impossível mas visualmente credível, a Maybelline ativou de forma imediata o desejo de partilha dos utilizadores. A campanha deixou de ser uma peça de publicidade estática para se transformar numa narrativa digital interativa, motivando os consumidores a questionarem a veracidade das imagens nos comentários e a partilharem a ilusão com a sua própria rede de contactos.

É precisamente nesta dinâmica de partilha que reside o verdadeiro triunfo da campanha, a explosão de eWOM (electronic Word-of-Mouth). Em vez de investir o seu orçamento de comunicação na compra massiva de espaço em meios tradicionais, a marca apostou na criação de uma peça tão inusitada que o próprio público assumiu o papel de prosumer.

O fenómeno do FOOH da Maybelline ilustra brilhantemente como o Mix da Comunicação moderno não precisa de estar ancorado na realidade física para ter impacto. Quando uma marca domina a arte de gerar este tipo de surpresa visual no ecrã, o consumidor encarrega-se voluntariamente de transformar essa ilusão num sucesso de marketing à escala global.

Fontes:

https://youtu.be/iyVow-HCCE0?si=J7-aTJj-r15RtUkm

https://www.glossy.co/beauty/what-maybellines-faux-ooh-ads-say-about-the-future-of-advertising-in-augmented-reality/

https://itspersonal.agency/blog/the-viral-maybelline-stunt-where-reality-meets-cgi-creativity

MacBook Neo: a Apple está a falar para uma nova geração?

 A Apple sempre nos habituou a lançamentos minimalistas e cuidadosamente preparados. Mas, com o MacBook Neo, a marca parece ter escolhido uma abordagem diferente.

Se repararmos, todas as publicações feitas pela Apple no TikTok estão direcionadas para este lançamento. Os vídeos são curtos, coloridos, chamativos e têm uma estética mais divertida. Com isto, a Apple foge à imagem mais séria e premium que normalmente associamos à marca. Mais do que anúncios adaptados às redes sociais, parecem conteúdos criados exclusivamente para o TikTok.

Esta mudança faz sentido quando olhamos para o próprio produto. O MacBook Neo surge a opção mais acessível dentro do universo Apple e é direcionado sobretudo para estudantes, jovens e novos utilizadores. Ou seja, não se dirige apenas a quem já compra Apple, mas parece tentar chegar a quem ainda não entrou no ecossistema da marca.

Neste caso, mudar o produto implicou mudar a linguagem de comunicação. Se o objetivo era chegar a um público mais jovem, não bastava lançar uma opção mais acessível. A marca tinha de aparecer nos canais onde esse público está, com principal destaque para o TikTok, e comunicar de uma forma que fizesse sentido nesse contexto.

Ao mesmo tempo, esta mudança também traz um risco. A Apple sempre construiu parte do seu valor através de uma imagem premium, controlada e muito coerente. Ao usar esta linguagem mais leve e própria do TikTok, aproxima-se de novos consumidores, mas também pode tornar a marca menos exclusiva aos olhos de alguns.

Acham que esta aposta no TikTok aproxima a Apple de uma nova geração de consumidores, ou pode tornar a marca menos exclusiva?


Fontes:

https://thenextbigidea.pt/o-que-o-novo-macbook-neo-diz-sobre-a-estrategia-da-apple/

https://bitflowtech.com.br/artigo/apple-no-tiktok-macbook-neo-ganha-campanha-viral-e-colorida-mmjqngd4

Moldy Whopper: uma campanha pouco apetecível, mas impossível de ignorar

 Quando pensamos numa publicidade de comida, esperamos ver o produto perfeito. A Burger King fez precisamente o contrário: mostrou um Whopper a ganhar bolor.



A campanha Moldy Whopper acompanhava a decomposição do hambúrguer ao longo de vários dias. À primeira vista, parece uma péssima ideia… afinal, quem é que quer ver comida com bolor numa campanha de comida?

Mas era esse o ponto. A Burger King queria mostrar que o Whopper não tinha conservantes artificiais e, em vez de ficar apenas pela mensagem, mostrou a consequência prática. Se não tem conservantes artificiais, então estraga-se!

Na minha opinião, esta campanha é brilhante do ponto de vista da notoriedade, mas arriscada do ponto de vista do desejo de compra. Por um lado, é impossível ignorá-la. Por outro, também é difícil olhar para um hambúrguer com bolor e ficar imediatamente com vontade de comer. A campanha chama a atenção, mas não necessariamente abre o apetite.

Ainda assim, talvez fosse esse o objetivo, não criar fome imediata, mas criar conversa. A campanha começou na marca, mas rapidamente deixou de depender só dela. Ao ser comentada e partilhada por consumidores e meios de comunicação, ganhou alcance, mas também perdeu algum controlo sobre a forma como a mensagem era interpretada.

Uma campanha não vive apenas daquilo que a marca quer dizer, mas também da forma como as pessoas reagem, comentam e interpretam a mensagem. Neste caso, o bolor podia ser visto como prova de autenticidade, mas também como algo simplesmente desagradável...

Acham que a Burger King acertou ao arriscar numa campanha tão pouco apetecível, ou foi longe demais?


Fontes: 

https://observador.pt/2020/02/20/burger-king-mostra-hamburguer-a-ganhar-bolor-para-promover-novo-whopper-sem-conservantes/ 

https://hubdecriativos.com/moldy-whopper-mofo-como-metafora/

https://mynameiskalam.com/case-studies/burger-king-moldy-whopper/

sábado, 23 de maio de 2026

A Frize deixa-nos bem dispostos

Antecipando a chegada do tempo quente a Frize lançou um produto que dá inicio à exploração um novo segmento que pretende afastar-se da tradicional água com gás: o mocktail.

O produto é novo, mas a campanha que o apresenta aos portugueses mantém o tema da campanha lançada em 2025 para reposicionamento da marca para apelar a um público mais jovem em que esta se apresenta como produto irreverente. Até aqui nada de novo. A surpresa surge quando se percebe que a marca se apropriou de um tema muito recente e amplamente discutido na sociedade e o transformou em veículo da sua mensagem numa adaptação tão perfeita que até parece que foi combinado 😊

É que a Frize criou um anúncio em que os irmãos Nelson e Sérgio Rosado, os Anjos, pedem uma Frize a um barman que lhes responde: “Depois daquilo que se passou?”, aludindo ao conflito com Joana Marques; eles respondem com uma versão adaptada do hit “Perdoa” (“Perdoa se peço demais, eram só umas medidas legais”), mas a marca remata com a “sentencia”: “Perdoem‑nos, Anjos. Este mocktail é só para bem‑dispostos”. 

A campanha surge após um muito publicitado processo em que os Anjos pediram uma avultada indemnização à humorista por um vídeo satírico sobre a sua atuação do hino nacional, caso que terminou com a absolvição desta.

Do ponto de vista de marketing digital, a campanha adota uma estratégia de storytelling (ainda que indireto) em que a realidade e a dimensão intangível do anúncio se misturam com humor num "piscar de olho” cúmplice ao consumidor que lhe lembra que não há necessidade de explicar porque todos sabemos a que se refere a representação.

O objetivo de identificar a marca como irreverente e brincalhona sai reforçado através desta campanha com uma mensagem bem-humorada e provocadora. Paralelamente, a marca coloca-se ao lado do público que maioritariamente se manifestou no sentido da valorização da liberdade de expressão ao sublinhar que os Anjos não são suficientemente bem dispostos para poderem aceder ao privilégio de consumir este mocktail.

A própria marca “Anjos” sai reforçada desta campanha, já que após meses de criticas, os dois irmãos exibem publicamente uma capacidade de “fair-play” que não lhes era reconhecida até ao momento, permitindo-lhes dar inicio a um eventual processo de rebranding com amplo alcance em curto espaço de tempo.

Em resumo, esta campanha tem todos os ingredientes para ser bem sucedida em marketing digital devido ao facto de ser memorável e pelo seu potencial de gerar comentários online.

Antecipando a chegada do tempo quente a Frize lancou um produto que dá inicio á exploração um novo segmento que pretende afastar-se da tradicional água com gás: o mocktail.

O produto é novo, mas a campanha que o apresenta aos portugueses mantem o tema da campanha lançada em 2025 para reposicionamento da marca para apelar a um público mais jovem em que esta se apresenta como produto irreverente. Até aqui nada de novo. A surpresa surge quando se percebe que a marca se apropriou de um tema muito recente e amplamente discutido na sociedade e o transformou em veículo da sua mensagem numa adaptação tão perfeita que até parece que foi combinado 😊

É que a Frize criou um anúncio em que os irmãos Nelson e Sérgio Rosado, os Anjos, pedem uma Frize a um barman que lhes responde: “Depois daquilo que se passou?”, aludindo ao conflito com Joana Marques; eles respondem com uma versão adaptada do hit “Perdoa” (“Perdoa se peço demais, eram só umas medidas legais”), mas a marca remata com a “sentencia”: “Perdoem‑nos, Anjos. Este mocktail é só para bem‑dispostos”. 

A campanha surge após um muito publicitado processo em que os Anjos pediram uma avultada indemnização à humorista  por um vídeo satírico sobre a sua atuação do hino nacional, caso que terminou com a absolvição desta.

Do ponto de vista de  marketing digital, a companha adota uma estratégia de storytelling (ainda que indireto) em que a realidade e a dimensão intangível do anúncio se misturam com humor num “piscar de olho” cúmplice ao consumidor que lhe lembra que não há necessidade de explicar porque todos sabemos a que se refere a representação.

O objetivo de identificar a marca como irreverente e brincalhona sai reforçado através desta campanha com uma mensagem bem-humorada e provocadora. Paralelamente, a marca coloca-se ao lado do público que maioritariamente se manifestou no sentido da valorização da liberdade de expressão ao sublinhar que os Anjos não são suficientemente bem dispostos para poderem aceder ao privilégio de consumir este mocktail.

A própria marca “Anjos” sai reforçada desta campanha, já que após meses de criticas, os dois irmãos exibem publicamente uma capacidade de “fair-play” que não lhes era reconhecida até ao momento, permitindo-lhes dar inicio a um eventual processo de rebranding com amplo alcance em curto espaço de tempo.

Em resumo, esta campanha tem todos os ingredientes para ser bem sucedida em marketing digital por ser memorável e pelo seu potencial de gerar comentários on-line.

Digam lá se não ficaram com vontade de brindar ao fim das aulas com um mocktail da Frize, hein? 😉


Frize Mocktail e Anjos

sexta-feira, 22 de maio de 2026

LinkedIn Premium: A barreira invisível entre o networking gratuito e a monetização da curiosidade

Muitas vezes, quando pensamos no modelo de negócio Freemium, o exemplo clássico que nos vem à mente é o dos jornais digitais, lemos o início de um artigo gratuitamente, mas rapidamente esbarramos numa paywall que nos exige uma subscrição para aceder ao resto da informação.


Contudo, no panorama das redes sociais, poucas plataformas executam esta estratégia de forma tão exímia e lucrativa como o LinkedIn. A base deste sucesso assenta no facto de a sua versão gratuita ser, por si só, uma ferramenta incrivelmente completa e valiosa. Qualquer utilizador pode criar o seu perfil, candidatar-se a vagas e construir uma rede de contactos sem gastar um cêntimo. Esta gratuidade é essencial para garantir o chamado network effect. A plataforma só tem valor para os recrutadores e para as empresas se toda a força de trabalho estiver lá presente. No entanto, a genialidade da estratégia da empresa revela-se no momento em que o utilizador tenta dar um passo além do uso básico e esbarra em bloqueios estrategicamente desenhados para despertar frustração, curiosidade ou necessidade comercial. 

 

Um dos exemplos mais flagrantes e psicologicamente eficazes desta estratégia é a funcionalidade "Quem viu o seu perfil". Na versão gratuita, o LinkedIn mostra que dezenas de pessoas visitaram a página, mas apresenta a maioria das fotografias e nomes desfocados. Ao fazê-lo, a plataforma não está apenas a vender uma subscrição, está a monetizar um gatilho mental fortíssimo, a curiosidade humana e a necessidade de validação profissional. Saber quem nos está a investigar pode ser a diferença entre conseguir uma oportunidade de ouro ou perdê-la, e é exatamente sobre essa urgência que a conversão para o Premium opera. Da mesma forma, o modelo impõe barreiras rigorosas ao networking ativo. Se um utilizador quiser enviar uma mensagem a alguém fora da sua rede de contactos diretos, como um recrutador ou um potencial cliente, depara-se com o bloqueio do InMail, exigindo a passagem para uma conta paga.

Deste modo, o caso do LinkedIn demonstra que o modelo Freemium atinge o seu expoente máximo quando a versão gratuita é tão boa que se torna indispensável na rotina do utilizador. A verdadeira mestria não está em forçar o pagamento desde o primeiro minuto, mas sim em mapear detalhadamente a jornada do consumidor e colocar a paywall no momento exato em que a ambição profissional, ou a simples curiosidade, superam a resistência a pagar.

Fontes:

https://review.firstround.com/glossary/freemium/

https://hooktide.io/learn/linkedin-profile-views-visibility

Material fornecido pela professora Teresa Fernandes na Unidade Curricular de Web Marketing e Comércio Eletrónico 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O “Caos Bonito” do Marketing Emocional: quando uma campanha vende sensações, não apenas produto

No marketing atual, as marcas já não competem apenas por atenção. Competem por significado, identificação e emoção. E foi exatamente isso que a campanha de Natal e Passagem de Ano da Casal Garcia conseguiu transmitir através de uma narrativa simples, humana e extremamente visual - uma campanha da qual tive também a oportunidade de fazer parte como protagonista.

Participar neste projeto permitiu-me perceber de perto como uma campanha emocional é construída muito para além do produto. Desde a narrativa ao ambiente visual, tudo foi pensado para transmitir uma sensação específica: aquele período entre o Natal e o Ano Novo em que os dias parecem perder definição e o tempo deixa de funcionar de forma normal.


A campanha acompanha Francisca durante esse intervalo quase suspenso da realidade - um verdadeiro “limbo” festivo onde já ninguém sabe se é segunda-feira, sábado ou domingo.

Mas é precisamente aí que está a força criativa da campanha.

Em vez de apostar numa visão demasiado perfeita ou artificial das festividades, o vídeo trabalha o conceito de “caos bonito”: o caos das mesas cheias, das gargalhadas espontâneas, dos brindes repetidos, das conversas demoradas e da sensação coletiva de simplesmente aproveitar o momento.

Ao longo do vídeo, a personagem surge constantemente num estado de fruição - come, brinda, ri-se e vive sem pressa. A narrativa transmite a ideia de que, naquele espaço entre festividades, existir já é suficiente. E essa autenticidade emocional aproxima imediatamente o público da marca.

Do ponto de vista do marketing, esta abordagem é particularmente eficaz porque o produto não surge de forma forçada. O Casal Garcia Fruitzy de Pêssego aparece integrado naturalmente nos momentos de convívio, funcionando como parte da experiência e não apenas como elemento promocional.

Esta é uma das maiores tendências do marketing contemporâneo:
as marcas mais fortes são aquelas que conseguem vender emoções, ambientes e estados de espírito, em vez de apenas características funcionais.

Visualmente, a campanha reforça esta ideia através de uma estética leve, quente e descontraída, alinhada com o posicionamento da marca. O fecho do vídeo resume perfeitamente toda essa construção emocional ao descrever o final do ano como algo “leve, doce e no ritmo certo” - características que refletem simultaneamente a experiência vivida pela protagonista e a personalidade da bebida.

Ter participado nesta campanha permitiu-me também observar como o storytelling emocional consegue criar identificação genuína com o consumidor. Porque, no fundo, quase toda a gente reconhece aquele período indefinido entre o Natal e o Ano Novo. E quando uma marca consegue transformar uma sensação coletiva numa narrativa visual coerente, deixa de vender apenas um produto - passa a fazer parte da memória emocional do público.

Deixo aqui o link para quem quiser ver o vídeo completo!

https://www.instagram.com/reel/DSxFi4HjT5U/?igsh=YnZoZjB0aG82cmhy 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

“67”: quando um número vira tendência no digital

Nos últimos tempos, é cada vez mais comum ver crianças e jovens a dizerem “67” em vídeos, nas redes sociais e até no dia a dia. O mais curioso é que, na verdade, quase ninguém sabe explicar exatamente o que isso significa.

E é aqui que isto se torna interessante do ponto de vista do marketing digital. O “67” não nasceu como uma campanha ou uma ideia de marca, mas acabou por ganhar força sozinho, através das redes sociais, da repetição e da forma como os utilizadores vão copiando comportamentos uns dos outros.

Em plataformas como o TikTok e o Instagram começaram a surgir vídeos, sons e referências associadas ao número, o que ajudou a transformar algo que, à partida, não tinha um significado claro, numa espécie de “código” cultural entre utilizadores. Este tipo de fenómenos demonstra como o digital cria tendências que se propagam de forma autónoma, sem necessidade de uma origem formal de marketing ou comunicação de marca.

No fundo, o mais interessante nem é perceber o que o número significa (porque muitas vezes nem existe uma explicação única), mas sim perceber como ele se espalha. As pessoas repetem porque veem outros a repetir, partilham porque está a ser partilhado, e assim cria-se uma tendência que cresce de forma orgânica e quase auto-sustentada.

Do ponto de vista do marketing digital, isto mostra algo muito simples: nem sempre é preciso uma grande mensagem ou uma ideia estruturada. Às vezes, basta um elemento pequeno, fácil de reproduzir e culturalmente adaptável para ganhar vida própria dentro das redes sociais.

Este fenómeno ganhou ainda mais força com a música “Six Seven” de Laurinha Costa, DJ Cabello e DJ Tchouzen, que ajudou a amplificar a tendência através do som e da dança.

Aqui, a lógica é clara: quando um elemento é associado a música e coreografia, a probabilidade de viralização aumenta significativamente, porque facilita a replicação e a participação ativa dos utilizadores.

Do ponto de vista do Web Marketing, este caso é particularmente relevante porque mostra que as tendências digitais não vivem isoladas. Elas constroem-se através de um ecossistema de conteúdos: vídeos, música, memes e interações, que se alimentam mutuamente e aceleram a sua disseminação.

Neste contexto, várias marcas já perceberam a importância de integrar tendências em vez de apenas criar campanhas isoladas. No caso do TikTok, muitas tendências musicais e virais acabam por ser incorporadas por criadores e até por marcas, que procuram ganhar relevância dentro da cultura da plataforma. Também marcas como a Nike têm recorrido frequentemente a códigos culturais do digital e tendências orgânicas para reforçar a sua presença junto de públicos mais jovens.

Isto mostra uma mudança importante no marketing contemporâneo: as marcas já não são apenas criadoras de tendências, mas também observadoras e participantes da cultura digital.

💡E aqui entra um exemplo interessante: o fenómeno do “67” poderia perfeitamente ter sido explorado por uma marca como a McDonald's. A marca tem histórico de comunicação altamente ligada à cultura jovem e viral, e poderia ter integrado o número numa campanha simples, visual e altamente repetível: por exemplo, através de conteúdos curtos no TikTok com humor e repetição, transformando um fenómeno espontâneo numa ativação global de engagement.

E é precisamente isso que torna este tipo de tendências tão relevante para o marketing digital: elas não são criadas, são descobertas.

No fundo, o “67” mostra algo essencial no comportamento digital atual: nem sempre importa o significado original, mas sim a capacidade de algo ser repetido, reinterpretado e partilhado até se tornar parte da cultura coletiva.

E fica a reflexão final: no digital, o mais poderoso não é o que se diz… mas o que todos decidem repetir.

Heinz: quando a criatividade simples fala mais alto

Num contexto em que muitas campanhas apostam em tecnologia complexa, a Heinz conseguiu destacar-se com uma ideia simples, mas extremamente eficaz: a campanha “AI Ketchup”.

O conceito era direto: pedir a ferramentas de inteligência artificial para gerar imagens de ketchup. Curiosamente, os resultados aproximavam-se sempre de uma garrafa Heinz. A marca aproveitou este insight para reforçar uma ideia poderosa, quando pensamos em ketchup, pensamos automaticamente em Heinz.

Esta campanha destaca-se por combinar criatividade com uma tendência atual, a inteligência artificial, sem complicar a mensagem. Em vez de explicar demasiado, deixa que o próprio resultado fale por si, criando um efeito quase intuitivo no público.

Para além disso, é um excelente exemplo de branding forte. A Heinz não precisou de mostrar características do produto nem de investir numa narrativa emocional complexa. Bastou uma ideia inteligente para reforçar o seu posicionamento na mente dos consumidores.

O mais interessante é que este impacto não fica apenas no plano criativo ou visual. Ele estende-se à própria forma como a marca é reconhecida. Quando a inteligência artificial começa a gerar automaticamente imagens que remetem para a Heinz, isso revela um nível de notoriedade tão forte que a marca praticamente se torna sinónimo da categoria de produto.

E aqui começa uma reflexão mais ampla. Quando o mercado passa a usar o nome de uma marca para designar toda uma categoria de produto, isso revela a força da sua notoriedade e do seu posicionamento. Esse nível de reconhecimento acaba por sustentar uma presença global muito forte e consistente, tornando-se um exemplo claro de propriedade intelectual na prática. Mais do que uma campanha, estamos perante uma marca que se transformou num ativo global altamente valioso.

Do ponto de vista de marketing, este é um cenário quase ideal: quando pensamos em ketchup, pensamos em Heinz. A marca ocupa automaticamente o espaço mental do consumidor.

No entanto, esta força também levanta uma questão estratégica importante. Quando uma marca se torna sinónimo de uma categoria, existe o risco de diluição da marca, ou seja, quando o nome ou os seus elementos distintivos começam a ser usados de forma tão genérica que podem perder parte da sua singularidade ao longo do tempo.

Isto não significa que exista um problema neste caso concreto, mas sim uma reflexão sobre o equilíbrio necessário na gestão de marca. Construir uma marca tão forte que se torna referência global é o objetivo de qualquer estratégia de branding, mas é igualmente essencial garantir que essa notoriedade é protegida e controlada, de forma a preservar o seu valor no longo prazo.

No fundo, este caso mostra de forma muito clara como marketing, criatividade e direito não estão separados, mas funcionam como partes do mesmo sistema. Uma marca não é apenas comunicação ou publicidade, é também um ativo estratégico que precisa de ser continuamente gerido para manter a sua força e relevância.

E é precisamente aqui que a campanha volta ao ponto inicial. Este caso demonstra que, no marketing digital, nem sempre é preciso fazer mais para se destacar. Às vezes, uma ideia simples, bem executada e alinhada com o contexto atual, pode gerar tanto ou mais impacto do que campanhas mais elaboradas.

Fica a reflexão final: será que, no meio de tanta inovação e tecnologia, as campanhas mais simples acabam por ser as mais memoráveis?


terça-feira, 19 de maio de 2026

Stanley: Como o TikTok transformou um copo de campismo de 100 anos num símbolo de status da Geração Z

Durante mais de um século, a marca Stanley foi sinónimo de resistência e isolamento térmico para trabalhadores fabris e entusiastas de atividades ao ar livre. No entanto, nos últimos anos, as redes sociais testemunharam uma transformação radical, o copo modelo Quencher tornou-se um fenómeno viral e um acessório indispensável para a Geração Z e Millennials. Mas como é que uma garrafa utilitária de uma marca tradicional e estabelecida sofreu um reposicionamento tão drástico e se converteu no maior objeto de desejo do comércio digital recente?


O ponto de viragem desta narrativa começou de forma quase acidental, ilustrando na perfeição o poder do eWOM (electronic Word-of-Mouth) e do marketing de influência. O paradigma mudou quando um blogue gerido por mulheres, o "The Buy Guide", começou a promover o copo pela sua estética e conveniência para o dia a dia. Ao aperceber-se da situação, a Stanley tomou a decisão estratégica de ouvir os dados e redirecionar o seu público-alvo, tradicionalmente masculino, para uma nova audiência. Esta mudança de foco ganhou proporções extraordinárias no TikTok, impulsionada por comunidades e tendências como o "#WaterTok", onde o simples ato de hidratação foi transformado num estilo de vida visualmente apelativo e altamente partilhável.

Para cimentar este reposicionamento, a explosão de vendas da Stanley apoiou-se numa estratégia altamente eficaz de escassez, adotando a chamada drop culture, um modelo habitualmente reservado ao mercado de sneakers ou marcas de streetwear. Ao lançar coleções de cores de edição limitada e realizar parcerias exclusivas, a marca gera um sentido de urgência avassalador que desperta o tão conhecido efeito FOMO (Fear Of Missing Out). Através deste mecanismo psicológico, o produto deixa de ser avaliado pela sua mera utilidade e ascende à categoria de acessório de moda colecionável e símbolo de status social, levando os consumidores a comprarem múltiplas versões da mesma garrafa.

O momento mais emblemático ocorreu quando uma utilizadora publicou um vídeo a mostrar o seu carro completamente destruído por um incêndio, onde o único item intacto, ainda com gelo no interior, era o seu copo Stanley. Numa jogada de mestre, a marca respondeu rapidamente, oferecendo copos novos e a substituição do veículo da utilizadora. Esta ação humanizada não só validou a durabilidade do produto de forma irrefutável, como capitalizou sobre o User-Generated Content (UGC) para gerar uma onda de empatia e publicidade orgânica incalculável.


Em suma, o fenómeno da Stanley ilustra uma mudança de poder fundamental no marketing digital moderno, as narrativas de sucesso já não são necessariamente criadas e impostas pelas marcas, mas sim ditadas pelos próprios consumidores. A viralidade deste copo não resultou de uma campanha milionária pensada numa sala de reuniões, mas sim de um movimento espontâneo nascido nas redes sociais que reflete o novo paradigma do consumidor digital, que atua agora como prosumer e co-criador da marca.

A verdadeira lição deste caso não está na criação da tendência, mas sim na excecional capacidade de adaptação da empresa. Em vez de tentar forçar a sua identidade tradicional, a Stanley soube escutar, dando resposta a este novo público ao ajustar rapidamente a estética do produto e o modelo de vendas para alimentar a procura que a comunidade gerou.

Fontes:

https://www.honglingmfg.com/blogs/blogs/the-evolution-of-stanley-water-bottles-from-classic-insulated-cups-to-outdoor-legend

https://www.whiskeyriff.com/2023/11/16/even-after-a-car-fire-stanley-cups-will-still-have-ice-cubes/

https://www.researchgate.net/publication/382574677_Brand_Analysis_of_Stanley_and_How_It_Became_Popular

domingo, 17 de maio de 2026

IKEA a pensar pequeno!

A primeira vez que entrei numa loja IKEA fiquei impressionada com o tamanho e a quantidade de produtos. Um entusiamo que depressa passou a incomodo pela longa exposição e por me obrigar a percorrer um longo percurso para chegar à etapa que queria: a de adquirir o produto.


Assim, passei a pertencer ao restrito grupo de pessoas que quando visita o IKEA passa diretamente para o armazém, direta para um computador para saber onde está guardado o produto, isto quando não trago essa informação já comigo de casa.

Eu sou uma exceção. A maioria dos consumidores gosta das lojas do IKEA pelo conceito de grande exposição. E esta exposição é pensada ao milímetro. Cada móvel é colocado de forma a despoletar algo no nosso subconsciente, cada item é posicionado no seu ambiente natural, contextualizado. O IKEA não nos obriga a imaginar como vai ficar o objeto na nossa sala, ele mostra como fica numa sala, e por esse motivo ficamos a desejar aquele móvel.

Esta lógica de distribuição requer, no entanto, muito espaço físico e isso afasta a marca dos grandes centros urbanos. Uma loja como a do IKEA precisa de muito espaço de exposição, muito espaço de armazenamento e uma equipa de profissionais enorme. Isto não é necessariamente um ponto negativo, mas é um inconveniente para a implementação da marca em mercados como o americano, e também em grandes capitais europeias. E depois claro, há também o problema dos clientes como eu que apesar de gostarem dos móveis e acharem que eles são fáceis de montar (relativamente fáceis), não gostam de visitar a loja pelo labirinto que é.

Para responder a tudo isto, o IKEA lançou um novo conceito de loja “Plan and Order”. Pequenos showrooms onde mais do que a exposição de produto, a marca criou estúdios de planeamento e oferta de serviços de design de interiores. Continuam a ter alguns produtos expostos, principalmente aqueles de compra por impulso, mas o foco é oferecer uma experiência totalmente personalizada. Sendo lojas mais pequenas, conseguem estar nos centros urbanos.

Numa perspetiva de marketing, estas lojas são um exemplo claro de convergência online/offline. Focam-se em catálogos digitais, hiper segmentação (segmentação de acordo com perfis demográficos muito específicos), em ser pontos de recolha da loja online e na personalização de serviço para otimizar toda a jornada de compra. Com a ajuda de um consultor, os clientes criam os seus espaços que depois são diretamente entregues em casa.

A primeira loja que conheci deste género foi em Madrid (Ikea Goya). Tem o pomposo nome de “Tienda Urbana” e é isso mesmo que ela é. Urbana, compacta e pensada para um perfil de cliente muito específico (hiper segmentação). Aqui não encontrei sofás para toda a família ou mesas de jantar de 3m. Encontrei camas para quartos pequenos, e utensílios pensados para apartamentos de 40m2. Uma visita pelas avaliações do Google mostra que muitos clientes sentem a falta da grande exposição, mas também os outros, como eu, que veem nesta loja o exemplo perfeito de como otimizar tempo e dinheiro. Mais do que agradar a gregos ou troianos, a IKEA com esta tipologia de lojas procura adaptar-se ao novo paradigma do Marketing, mas também do consumidor tipo.  


E vocês de que tipologia de loja gostam? Do IKEA gigante com diferentes cenários de exposição? Ou do IKEA compacto e de serviço personalizado?


Fonte: IKEA (www.ikea.com)
Imagens: IKEA
 

sábado, 16 de maio de 2026

Fiat: humor, identidade e publicidade memorável

Hoje ao rever alguns anúncios antigos e mais recentes da Fiat, percebi como a marca conseguiu manter uma identidade de comunicação muito própria ao longo do tempo. Mesmo com anuncios separados em 10 anos, com as mudanças no setor automóvel e com a integração no grupo Stellantis, a Fiat parece continuar fiel a uma linguagem criativa, leve e facilmente memorável.

Talvez por também ter um Fiat 500 de 2018, acabo por olhar para todas as campanhas com alguma nostalgia. O Fiat 500 sempre foi mais do que um simples citadino: é um carro com personalidade, com uma estética muito própria e com uma ligação emocional forte à história da marca.

Um primeiro exemplo interessante é o anúncio “Fiat 500S - Tested for Bad Boys”, onde a marca transforma uma situação improvável e humorística numa demonstração indireta da resistência do carro. No anúncio, uma discussão acesa leva uma mulher a descarregar a sua fúria no Fiat 500 de um homem, batendo-lhe com a mala e até dando pontapés no automóvel. A reviravolta está no facto de a Fiat apresentar esta situação como algo que os seus engenheiros já tinham antecipado e testado. Ou seja, em vez de comunicar a robustez do carro através de dados técnicos, a marca usa humor, exagero e storytelling para tornar essa mensagem muito mais memorável.


Um segundo exemplo, mais recentemente já no contexto Stellantis, a Fiat continua a apostar numa comunicação criativa e emocional, mas agora mais adaptada ao consumo rápido de conteúdos digitais. O segundo anúncio, criado há cerca de dois meses para assinalar o lançamento do recente Fiat 500 híbrido, apresenta uma narrativa bastante divertida e simbólica: Roberto sai de casa no seu novo Fiat 500 com a esposa, que lhe pergunta quem ficou a fazer o trabalho. Ele responde que ficou o “Roberto 1.0”. Pelo caminho, Roberto encontra esse robot humanoide “1.0” dentro de outro Fiat 500 e pergunta-lhe quem ficou a trabalhar. O robot responde que criou o “Roberto 2.0” para continuar o trabalho. A situação repete-se sucessivamente até surgir a “Roberta”, uma robot humanoide feminina que também não ficou a trabalhar: saiu no seu 500 para ir às compras e buscar o cão.


A essência do segundo anúncio está precisamente nessa ideia: até os próprios robots acabam por se apaixonar pela experiência de conduzir o novo Fiat 500e (hibrido) que tem caixa manual e não são puramente carros eletricos, pelo que preferem criar versões mais recentes deles próprios para que alguém continue a trabalhar em casa do Roberto, enquanto aproveitam a vida, os passeios e os pequenos momentos associados ao automóvel. O mais engraçado é que os humanoides acabam por reproduzir comportamentos tipicamente humanos e italianos, incluindo o clássico gesto italiano com a mão. 

No final como não podia deixar de ser, a assinatura “From Italy with amore” reforça precisamente esta componente emocional, descontraída e quase romântica da marca.

Do ponto de vista do Web Marketing, estes dois exemplos mostram que a publicidade automóvel não precisa de depender apenas de argumentos técnicos como potência, autonomia, consumo ou tecnologia. A Fiat aposta antes numa comunicação baseada em humor, storytelling e personalidade de marca.

Para mim, este tipo de conteúdo tende a funcionar muito bem no ambiente digital porque é fácil de consumir, fácil de recordar e facilmente partilhável nas redes sociais. Num contexto em que a atenção do consumidor é cada vez mais reduzida, campanhas criativas e emocionalmente reconhecíveis acabam por gerar muito mais engagement do que publicidade excessivamente técnica.

No fundo, a Fiat mostra mais uma vez, como nos tem vindo a habituar com os seus anúncios, que uma marca, mesmo pertencendo agora ao conglomerado Stellantis, pode evoluir sem perder totalmente a sua essência. Os formatos mudam, os canais evoluem, os grupos automóveis detentores das marcas fundem-se e o consumidor tornou-se mais digital, mas o humor, a criatividade e a capacidade de contar histórias continuam a ser ferramentas extremamente poderosas no marketing, em particular no caso da Fiat.

Na vossa opinião, as marcas automóveis ainda conseguem criar campanhas verdadeiramente memoráveis através do humor e do storytelling, ou o marketing atual está demasiado focado em tecnologia, performance e consumo rápido de conteúdos?

Fontes: 

https://www.youtube.com/watch?v=3YBhftZSlbM

https://www.youtube.com/watch?v=E2IZyHgkSeI

https://www.fiat.pt/modelos/500

El Corte Inglés: quando o retalho físico tenta reinventar-se no digital

Durante muitos anos, o El Corte Inglés foi visto como um símbolo do retalho físico tradicional. As grandes lojas, a variedade de departamentos, o atendimento personalizado e a experiência presencial sempre fizeram parte da identidade da marca. No entanto, com a crescente digitalização do consumo e o aumento das compras online, a empresa teve de responder a um desafio comum a muitos retalhistas históricos: a redução das visitas às lojas físicas e a necessidade de criar uma experiência mais integrada entre o online e o offline.

Embora tenha entrado relativamente tarde no comércio eletrónico, o El Corte Inglés conseguiu aproveitar uma das suas principais forças, que é a experiência de serviço e atenção ao cliente. Em vez de olhar para o digital como uma ameaça à loja física, a marca procurou aproximar os dois mundos, permitindo ao cliente pesquisar online, comprar através do website ou da app, escolher entrega ao domicílio ou optar pelo sistema Click & Collect, recolhendo a encomenda em loja. Desta forma, mantém uma relação contínua com a marca em vários pontos de contacto.


Um outro exemplo interessante desta lógica de conveniência já existia nas próprias lojas físicas através da chamada “Carta de Compras”. Este serviço permite que o cliente faça compras em diferentes departamentos sem ter de transportar todos os artigos durante a visita. As compras ficam associadas a uma carta e podem ser recolhidas mais tarde no piso de entregas ou recolha. Além disso, o cliente pode solicitar serviços complementares, como o embrulho de alguns artigos para oferta, algo particularmente útil nas compras de Natal.

Na prática, este modelo reduz fricção na experiência de compra e torna a visita à loja mais cómoda. O cliente circula livremente, continua a comprar em vários departamentos e só recolhe os artigos no final. Esta lógica mostra que o El Corte Inglés já trabalhava há muito tempo uma ideia de serviço integrado, mesmo antes de o conceito de omnicanalidade se tornar tão comum no retalho moderno.


Do ponto de vista do Web Marketing e do Comércio Eletrónico, o caso do El Corte Inglés é interessante porque mostra que o futuro do retalho não passa necessariamente por substituir a loja física pelo digital. Pelo contrário, passa por ligar melhor os canais "off" e "on", criando uma experiência contínua, conveniente e coerente para o consumidor.

A possibilidade de comprar online e recolher em loja reforça precisamente esta lógica omnicanal: o cliente beneficia da conveniência do digital, mas mantém o contacto com o espaço físico da marca. Ao mesmo tempo, a loja continua a ter um papel importante, não apenas como local de venda, mas também como ponto de apoio, recolha, confiança e relação com o cliente.

Hoje, o consumidor já não quer escolher entre comprar online ou comprar em loja. Quer pesquisar onde for mais fácil, comprar quando for mais conveniente e receber ou recolher da forma que melhor se adapta ao seu dia a dia. Nesse sentido, o desafio das marcas está em eliminar barreiras entre canais e transformar cada ponto de contacto numa parte da mesma jornada de compra.

No fundo, o El Corte Inglés mostra que o retalho tradicional pode continuar relevante quando consegue transformar a sua experiência de serviço numa vantagem também digital.

Na vossa opinião, marcas tradicionais que nasceram com formato de retalho físico, como o El Corte Inglés, ainda conseguem diferenciar-se pela experiência de serviço, ou o consumidor atual valoriza cada vez mais sobretudo preço, rapidez e conveniência digital?

Fontes:

https://www.elcorteingles.pt/welcome-tourists/pt/lisboa/services/handsfree-shopping/

https://www.elcorteingles.pt/info/click-collect/

https://www.elcorteingles.pt/ajuda/pt/envio-e-recolha/servicos-de-recolha/click-and-collect/

https://www.elcorteingles.pt/info/click-car/

Peugeot 206: quando um anúncio se transforma em memória coletiva

Arrisco-me a dizer que quase todos já vimos, mais do que uma vez, este anúncio do Peugeot 206. Lançado no início dos anos 2000, numa altura em que a Peugeot procurava reforçar uma imagem mais moderna, sem perder o histórico e o “pedigree” da marca, marcado por modelos míticos como o 205, este anúncio conseguiu traduzir muito bem essa ambição.

A publicidade da Peugeot 206, conhecida como “The Sculptor”, continua a ser um excelente exemplo de como uma marca consegue criar impacto sem depender apenas de argumentos técnicos sobre o produto. Em vez de apresentar o carro através de características como potência, consumo ou preço, a Peugeot construiu uma pequena história visual, simples e memorável, centrada no desejo de ter aquele automóvel.


O anúncio mostra um jovem que, ao ver o Peugeot 206, decide transformar artesanalmente o seu carro antigo numa versão improvisada do modelo. A ideia é exagerada, divertida e pouco realista, mas é precisamente isso que a torna eficaz. O foco não está apenas no automóvel, mas na forma como a marca consegue despertar aspiração, humor e identificação.

Do ponto de vista do Web Marketing, este anúncio continua relevante porque demonstra a força do storytelling e do conteúdo partilhável. Embora tenha sido criado antes da explosão atual das redes sociais, o vídeo continua a circular em plataformas como Facebook, YouTube e Instagram, funcionando quase como conteúdo viral. Isto mostra que uma boa ideia criativa pode prolongar a vida útil de uma campanha muito para além do seu lançamento original.

Este caso também ajuda a perceber que nem todo o marketing digital nasce no digital. Um anúncio pensado inicialmente para televisão pode ganhar uma nova vida online quando tem características que favorecem a partilha: é curto, visual, emocional, fácil de compreender e provoca uma reação. Neste sentido, a Peugeot conseguiu criar uma campanha com forte capacidade de "word-of-mouth", antes mesmo de este conceito estar tão associado às redes sociais.

Na minha opinião, este anúncio representa uma fase muito própria da Peugeot, em que a marca comunicava de forma criativa, jovem e emocional, mantendo uma identidade muito clara. Antes da integração no grupo Stellantis, a Peugeot parecia ter uma personalidade de comunicação mais autónoma e reconhecível, algo que este anúncio simboliza muito bem.

No fundo, “The Sculptor” mostra que a publicidade mais eficaz nem sempre é a que explica mais, mas sim a que fica na memória, e numa era em que a atenção é um bem escasso, essa talvez seja uma das maiores conquistas de uma marca.

Ainda hoje não consigo tirar aquela música indie da cabeça e atrevo-me a dizer que esta continua a ser uma das melhores publicidades automóveis alguma vez criadas.

Não é por mero acaso que o carro usado na publicidade ainda hoje é associado ao Musée de L’Aventure Peugeot, como símbolo da criatividade e da identidade da marca.


Na vossa opinião, as campanhas publicitárias atuais ainda conseguem criar este nível de ligação emocional e memorabilidade, ou o marketing digital moderno tornou-se demasiado rápido e descartável?

Fontes:

https://www.youtube.com/watch?v=wpqSvrjZsrU

https://laventure-association.com/en/evenement/peugeot-adventure-on-screen-at-laventure-peugeot-museum/

IKEA Place: Como a Realidade Aumentada está a reduzir a fricção na jornada de compra online

 A compra de mobiliário através de plataformas de comércio eletrónico deparou-se, durante muito tempo, numa barreira psicológica e prática quase incontornável: a incapacidade de prever com exatidão como uma peça se integraria no espaço físico do consumidor. Dúvidas como "será que este sofá cabe na minha sala?" ou "a cor combina com a carpete?" representavam pontos de elevada fricção na jornada de compra, gerando hesitação e resultando frequentemente no abandono do carrinho. 

Foi exatamente para resolver este problema do retalho que surgiu a aplicação IKEA Place, uma ferramenta que revolucionou o paradigma do Try Before You Buy através da utilização brilhante da Realidade Aumentada.



A genialidade desta solução reside na sua capacidade direta de anular o risco percecionado. De modo que, utilizando a câmara do smartphone, a aplicação permite aos utilizadores projetarem modelos tridimensionais de mobiliário, à escala real e com texturas precisas, diretamente nos seus próprios espaços. Ao transferir o produto do tradicional ecrã estático ou do catálogo em papel para o ambiente real do cliente, a marca elimina a necessidade de imaginação geométrica. O consumidor deixa de adivinhar, e passa a visualizar o resultado final com uma precisão quase absoluta, o que altera completamente a dinâmica e a velocidade da sua tomada de decisão.

O impacto desta estratégia na jornada do consumidor é duplo e altamente vantajoso para o negócio. Por um lado, ao aumentar substancialmente a confiança do cliente durante a fase de consideração, a marca consegue acelerar a conversão, transformando uma mera navegação curiosa numa compra efetiva e segura. Por outro lado, a nível logístico e de satisfação pós-venda, esta visualização prévia e realista mitiga drasticamente as taxas de devolução, uma vez que, o cliente recebe em casa exatamente aquilo que testou virtualmente, o que fortalece a fidelização e a perceção de valor da marca.

Resumidamente, o caso do IKEA Place ilustra de forma exemplar como a inovação tecnológica, ao colocar a Realidade Aumentada ao serviço da otimização da experiencia do cliente, provou que o futuro do retalho digital passa por esbater, de forma cada vez mais impercetível e útil, as complexas fronteiras entre o mundo físico e o ambiente online.


Fontes:

https://aiinstitute.hbs.edu/platform-digit/submission/legacy-furniture-bohemoth-ikea-all-in-on-ai/

https://www.shopify.com/enterprise/blog/augmented-reality-in-commerce

Material fornecido pela professora Teresa Fernandes na Unidade Curricular de Web Marketing e Comércio Eletrónico 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Como a Apple transformou as lojas físicas em showrooms para o e-Commerce

As lojas físicas já não servem apenas para vender produtos. Hoje, muitas marcas utilizam os espaços físicos para criar experiência, confiança e desejo antes da compra online. E poucas empresas fazem isso tão bem como a Apple.

Atualmente, milhões de consumidores visitam as Apple Stores para experimentar iPhones, MacBooks ou AirPods, testar funcionalidades e receber aconselhamento personalizado. No entanto, muitos acabam por não comprar o produto naquele momento.

Depois da experiência em loja, a compra acontece online. Seja através do website da Apple, da aplicação ou até de outras plataformas digitais, o consumidor utiliza a loja física como um verdadeiro showroom antes da decisão final de compra. Este fenómeno mostra como o retalho mudou nos últimos anos. A loja deixou de ter apenas uma função comercial e passou a ter também um papel estratégico na construção da experiência da marca.

No caso da Apple, as lojas físicas foram desenhadas precisamente para isso. Os espaços são minimalistas, interativos e focados na experimentação dos produtos. O objetivo não é pressionar a venda imediata, mas sim criar uma ligação emocional com o consumidor. Além disso, a marca consegue integrar perfeitamente o físico e o digital. Um cliente pode experimentar um produto em loja, comparar modelos online mais tarde e finalizar a compra quando quiser, sem perder a continuidade da experiência. Isto demonstra uma tendência cada vez mais evidente no mercado: o ponto de venda físico e o digital tendem a convergir. Hoje, o consumidor já não separa “online” e “offline”, e vê apenas uma única jornada de compra integrada.




As marcas mais fortes são precisamente aquelas que conseguem unir estes dois mundos de forma natural, criando experiências consistentes independentemente do canal utilizado. Este comportamento está cada vez mais presente nas novas gerações de consumidores. Muitos querem contacto físico com o produto antes da compra, mas preferem a conveniência e flexibilidade do e-Commerce. Por isso, as
empresas começaram a perceber que as lojas físicas já não competem com o online, mas sim, complementam-no.

O caso da Apple mostra que o futuro do retalho não passa pela substituição das lojas físicas, mas sim pela sua transformação em espaços de experiência capazes de impulsionar vendas digitais.

Na vossa opinião, o futuro das marcas passa por eliminar a diferença entre loja física e e-Commerce?


https://www.apple.com/retail/

https://hbr.org/2020/11/how-apple-is-organized-for-innovation

https://www.investopedia.com/terms/s/showrooming.asp?

https://hbr.org/2017/01/a-study-of-46000-shoppers-shows-that-omnichannel-retailing-works

Do Ecrã à Loja: Como a Mango integra a "Prateleira Infinita" com o Click & Collect

No contexto atual do marketing digital, a distinção entre os domínios físicos e virtuais deixou de existir para o consumidor, um conceito definido pela fórmula estratégica OFF = ON. De acordo com os fundamentos estudados nas aulas, o setor retalhista sofreu uma transformação profunda, passando de um modelo tradicional para uma estratégia omnicanal. Esta nova abordagem, amplamente sustentada pelo artigo clássico "The Future of Shopping", publicado na Harvard Business Review (HBR), tem como objetivo proporcionar uma experiência de vendas que integre, de forma sinérgica, as vantagens da distribuição offline com o ambiente online rico em informação. Para o consumidor contemporâneo, a marca é uma entidade singular, pelo que se espera que possa transitar entre canais de forma híbrida, mantendo a consistência em fatores como o preço, a rapidez e a qualidade do atendimento.

Um exemplo emblemático desta convergência é a Mango, que recorre à tecnologia para eliminar um dos maiores "pontos de dor" do retalho tradicional: a falta de stock nas lojas físicas. Ao implementar tablets e dispositivos móveis nas lojas físicas, a marca transformou o papel dos vendedores, que passaram a atuar como facilitadores omnicanal. Se um cliente não encontrar o tamanho, a cor ou o modelo desejado na prateleira, a venda não se perde; pelo contrário, é finalizada digitalmente de imediato. A marca permite que os clientes encomendem essas peças para entrega posterior, em casa ou para levantamento na loja (Click & Collect), garantindo que o processo de decisão não é interrompido por barreiras logísticas e, simultaneamente, familiarizando o cliente com a interface e as vantagens do canal online. Cria-se, assim, uma maior sensação de proximidade com a marca e um maior sentido de eficácia pós-compra. Além disso, permite uma devolução mais fiel, já que a encomenda pode ser aberta no momento e trocada caso o produto não seja o desejado. Nesse sentido, o cliente que se desloca à loja pode encontrar algo que lhe agrade e adquirir (cross-selling)




Esta abordagem, inserida no conceito estratégico "At Your Service", reflete precisamente o que a teoria da distribuição defende: os retalhistas tradicionais têm tudo a ganhar ao transferir a conveniência, a variedade de artigos e a transparência de preços do comércio eletrónico para o mundo real. Ao integrar o stock global da marca com a presença física, a Mango deixa de estar limitada à área de exposição da loja e passa a disponibilizar uma "prateleira infinita". Além disso, tem ainda outro canal no seu website principal, a Mango Outlet. Aqui, as roupas das coleções anteriores estão mais baratas e disponíveis em maior quantidade. Nesta nova era, as marcas que se destacam são aquelas que conseguem oferecer o melhor dos dois mundos de forma simbiótica. Enquanto o ambiente digital disponibiliza informações críticas, como avaliações detalhadas, guias de estilo e ferramentas de comparação de preços, o espaço físico proporciona satisfação imediata dos sentidos, um elemento lúdico à experiência e a segurança da interação física com o produto. O segredo do sucesso está em criar uma experiência sem atritos, na qual o cliente sinta que está a interagir com uma marca única que o assiste de forma inteligente, em qualquer lugar e a qualquer hora.

E vocês preferem comprar online, offline ou uma mistura dos dois? Costumam ir à Mango? Como acham que vai ficar o futuro das compras e do retail?